RSS Feed

Uma estrela sob o céu

k9424454

cinthiacortegoso@gmail.com

De Londrina-PR

O chão era de terra não só ao redor do casebre, mas em quase toda a cidade, só mesmo bem no centro da cidade havia calçamento, e também era sujo de terra.

E no casebre número dezessete morava Shaira, uma menina africana de doze anos. Mais cinco irmãos, uns maiores e outros menores que ela, sua mãe e a avó materna também dividiam o local suspenso por frágeis estacas de madeira velha. Esse era o cenário de quase toda a cidade, com exceção do centro que era calçado e possuía construções de comércio e alguns estabelecimentos necessários para o funcionamento de uma pequena área de civilização.

A mãe trabalhava numa fabriqueta de costura. Cumpria quase doze horas diárias de trabalho para manter a comida para a família, uma mistura de farinha com água mais alguns legumes era prato rotineiro. A avó fazia uns bolinhos típicos da região a fim de conseguir um pouco de dinheiro para algum remédio ou comprar algo de quase tudo que lhes faltava.

Shaira era diferente dos outros irmãos e das crianças que por ali viviam. Era mais quieta e muito observadora. E adorava olhar para o céu quando a noite começava a chegar. Ficava encostada, se a deixasse, por horas, no batente da única porta do casebre e olhava tanto para aquele profundo céu com estrelas. Não se encantava muito pelas brincadeiras comuns do lugar. Mas ao mesmo tempo era cheia de ternura e muito carinhosa com sua família.

A avó muito a observava. Era uma senhora simples que exageradamente já havia trabalhado em sua vida. Desde criança era entregadora de água, ou seja, ela ia até a fonte, um lugar bem distante, enchia latas grandes de água e trazia para as pessoas que tinham alguma moeda para lhe dar. Com esse trabalho criou a filha e ajudou a criar os netos, mas ultimamente sentia, com dor e desconforto, o excesso cometido ao corpo ao longo dos anos. E os bolinhos agora podiam ajudar a renda. E a avó perguntava para Shaira:

‒ Minha neta, o que tanto olha para o céu?

‒ Eu gosto muito do céu, vó ‒ simplesmente a menina respondia e continuava com o olhar compenetrado.

A avó a olhava um pouquinho mais e voltava para os afazeres.

Durante o dia, Shaira ia à escola, ajudava em casa. A magia começava com o início da noite e continuava noite adentro, mas às dez horas já estava na cama junto com todos os irmãos.

A menina gostava muito de cantarolar uma música folclórica da região. Eram assim os versos que ela sempre repedia: “E um dia, quando for forte e grande, terei condições de salvar meu povo e subir para o céu”.

Naquele dia, última sexta-feira do mês, Shaira voltou da escola em companhia de seus irmãos e alguns coleguinhas, como sempre fazia. Quando ela e os irmãos chegaram, a comida estava pronta, a mistura de farinha com água mais alguns legumes; a avó é quem preparava, pois a mãe trabalhava na fabriqueta quase doze horas por dia.

Depois de lavarem as mãos, as crianças se sentavam num banco de madeira que havia no casebre. A avó lhes servia um prato de comida para cada um. Sem falatório, nem boca aberta, as crianças e a avó comiam com calma e muita educação. Esse comportamento era natural naquela família. Quando muito, durante a refeição, uma ou outra criança compartilhava algum acontecimento.

Alimentados, então era hora de cada um fazer o que deveria. E Shaira sempre lavava a louça do almoço. Assim também fez naquela sexta-feira. E depois da tarefa feita, ela pediu à avó se poderia ir à casa de uma amiga para as duas fazerem o trabalho da escola.

‒ Sim, minha neta. Mas tome cuidado ‒ falou a avó.

A menina deu um beijo no rosto da querida senhora e nos dos irmãos que ali estavam, pois dois deles já haviam saído para brincar. Pegou o material e foi para a casa da amiga.

O trabalho escolar consistia em criar uma poesia e declamá-la no dia da grande apresentação da escola. Alguns países fizeram uma aliança cultural, cujos vencedores das escolas participantes viajariam para um país europeu e apresentariam as poesias. Então, Shaira chegou à casa da amiga Malika, que vivia numa situação financeira um pouquinho melhor. As duas eram muito amigas e decidiram se reunir para se ajudarem com o propósito da criação da poesia.

Sentadas à mesa, com lápis na mão e papel à frente. Só faltava mesmo a inspiração.

As duas começaram a rir. A graça de criança.

‒ Mas, Malika, precisamos ter ideia… precisamos saber sobre o que vamos escrever ‒ Shaira falou.

‒ É mesmo. Precisamos escolher o que queremos escrever ‒ pensou um pouco. ‒ Será que podemos colocar sobre qualquer coisa? ‒ a amiga perguntou.

‒ A professora falou que sim, mas que precisa ter sentimento, porque poesia não existe sem sentimento ‒ Shaira relembrou o que a professora havia explicado.

E aquela tarde foi a primeira das cinco que as duas se encontraram para tentar escrever a poesia. Malika finalmente escreveu sobre o amor que sentia por seu cão vira-latas de olhos cor de mel. Ela o amava, então, descreveu esse sentimento com simples e verdadeiras palavras.

No entanto, Shaira, na véspera do dia da entrega da poesia, ainda não havia terminado e muito menos poderia declamar algo que ainda não existia. Ela se despediu de Malika que lhe falou:

‒ Shaira, podemos dizer que escrevemos juntas a poesia e pedimos para declamar. O que acha?

Shaira a escutou com carinho e lhe falou:

‒ Malika, a professora disse que cada um precisa escrever a sua própria poesia. Desse jeito, nós duas ficaremos sem nota… e você já escreveu a sua… que ficou linda ‒  Shaira  falou com a delicadeza que lhe era tão própria.

‒ Gostaria que você já estivesse escrito uma bela poesia ‒ Malika falou.

‒ Sim… ‒ Shaira falou meio desanimadinha e logo foi embora.

Ela estava esperançosa que durante o caminho de volta tivesse uma ideia que a ajudasse com a poesia, mas ela chegou ao casebre e nenhuma ideia havia surgido.

E mais uma vez, Shaira chegou e ajudou a avó. A menina estava preocupada com o seu dever poético.

Terminada a ajuda, a menina foi admirar as estrelas. Seus olhos brilhavam com o encanto do céu. Mais do que nunca, ficou estática a buscar o entusiasmo criador. Precisava escrever uma poesia; a inspiração começou a surgir.

A menina, sem perder tempo, correu para o papel e o lápis. As palavras começaram a formar os primeiros versos, melodia, cadência, estrofação, tudo sem conhecimento de estrutura poética, mas com inteiramente o caminho do coração. Shaira começou a organizar o que já existia em seu sentimento, simplicidade foi dando forma. E não parou de escrever até colocar o ponto final no último verso.

Soltou o lápis sobre o papel. Os irmãos, aquela noite, estavam mais calminhos.

Pegou o papel e leu a poesia. Após a leitura seus olhinhos estavam marejados. Leu a sua própria emoção. Mas logo se lembrou de que não bastaria escrever, era necessário memorizar a poesia para, no dia seguinte, declamá-la e garantir, pelo menos, alguma pontuação para a nota final.

Sua família já estava dormindo. A avó e a mãe não se importavam em deixar uma luz acesa, pois sabiam do trabalho escolar. E, com determinação, a menina conseguiu, por mais uma hora, ler e tentar gravar a poesia; em seguida o sono e cansaço foram mais determinados que a jovenzinha.

Novamente o sol nasceu e o dia da apresentação chegou. A ordem para declamar seguia o livro de chamada. Shaira seria uma das últimas e, sentadinha, aguardava a sua vez na humilde sala de aula.

Alguns alunos eram mais aplaudidos que outros; finalmente chegou a vez da menina que se levantou e foi para a frente da sala. Levou a poesia escrita no papel que a criara. Ela sabia que não poderia ler, mas foi mais por segurança.

Um pouco tímida, começou. Não houve um barulhinho sequer durante a apresentação. Quando terminou, os aplausos foram muitos.

‒ Que poesia linda, Shaira – a professora falou.

‒ Obrigada, professora – a menina agradeceu.

‒ Adorei, Shaira – Malika abraçou a amiga. ‒ Eu estava triste por você, ainda ontem, não ter conseguido… Que bom… você conseguiu! ‒ Malika falou muito feliz.

‒ Sim, Malika, também estou muito feliz. Escrevi o que eu estava sentindo ‒ Shaira falou.

E por ser tão simples e sensível, a poesia de Shaira foi escolhida, entre as dos alunos da escola, para a declamação em um país europeu.

A menina, na companhia dos colegas e irmãos, voltou saltitando de alegria para casa. Também levou um pedido solicitando, no dia seguinte, a presença do responsável para as determinadas explicações e a autorização para Shaira poder participar do evento cultural em um país europeu que custearia todos os gastos. Seria também uma preciosa oportunidade para a menina conhecer novos lugares e pessoas, oportunidade até de iniciar uma nova vida.

No dia seguinte, a avó, com a procuração, chegou à escola na companhia da menina; a mãe não pôde comparecer, pois trabalhava quase doze horas diárias.

O professor, que também acompanharia Shaira, explicou à avó como seria a viagem, quanto tempo ficariam e o mais importante, além de todo gasto ser pago por um país europeu, a aluna receberia uma quantia em dinheiro pela participação. E a avó foi embora; Shaira ficou na escola. Mais tarde, o professor daria entrada à documentação necessária.

Como a cada dia tanto se resolve, após alguns amanheceres, chegou a manhã da viagem. A pequenina, com sua avó e irmão, chegou à escola um pouco adiantada do horário marcado.

A despedida foi emocionante.

Shaira nunca havia ficado distante de sua família… de sua avó querida. Mas eram apenas alguns dias e por um motivo tão feliz: a sensível poesia.

E lá no alto, o avião já recebia de mais perto os dourados raios solares. A menina estava sentadinha ao lado do atencioso professor e de uma professora acompanhante. Mais algumas horas e o avião tocou o solo em outro país, continente, com distinta cultura e valores.

Passada a noite, Shaira e os professores, após um delicioso café da manhã no hotel, foram levados ao maior colégio da cidade, onde aconteceria a apresentação com vinte alunos vencedores de diversos países.

O teatro do colégio estava lotado.

Vários alunos já haviam recitado quando Shaira foi apresentada.

‒ Recebam, com uma salva de palmas, a querida africana Shaira – foi o anúncio final do apresentador.

Shaira entrou no palco.

O público se aquietou.

A menina de doze anos estava diante de uma enorme plateia. Então, ela respirou fundo e começou a declamar sua poesia. Ela, assim, delicadamente começou:

“Gostaria tanto de pegar

uma estrela do céu.

Mas pensei… se eu pegá-la,

uma estrelinha deixará

de brilhar, pois em minha

mão não é o seu lugar.

Gostaria de ser uma estrela…

uma estrela azul,

poderia ver meu povo do alto;

mas se fosse assim,

estaria longe e não

poderia ajudá-lo.

Gostaria de ser

uma colorida borboleta

para voar por todo

os espaços e ver do

que meu povo mais precisa,

mas eu seria muito frágil

para ampará-lo.

Poderia, então, ser

uma linda flor

perfumada para

ajudar as pessoas a

se sentirem melhor.

Mas uma flor tem

vida mais curta

e não poderia ajudar

muitas pessoas.

Então, posso continuar mesmo a ser…

Shaira, uma menina africana

de olhos verdes,

pois crescerei e o

brilho das estrelas

iluminará meu caminho;

como a borboleta,

terei sabedoria para

ir por todos os lados

e serei doce como a

flor para conversar com meu querido povo

e entendê-lo.

Somos o que devemos ser,

mas podemos nos melhorar sempre”.

O público começou a se levantar antes mesmo de a menina terminar sua declamação. Algumas pessoas se encaminharam para os corredores. E quando a menina, magrinha e muito simples terminou, ficou um pouco envergonhada no palco, sozinha.

Em segundos, os aplausos aumentaram. O público do corredor queria estar mais próximo da menina africana de olhos verdes e não ir embora por estar desinteressado. O som das almas e assovios aumentavam a cada segundo.

Aqueles olhos verdes estavam brilhantes da lágrima emocionada. Abraços e cumprimentos, Shaira perdeu a conta de tantos que recebeu. E mesmo com a apresentação posterior dos outros alunos, foi Shaira quem levou o troféu por sua linda poesia. Estava muito feliz, pois além de tantos bons momentos durante a viagem, ela receberia um prêmio em dinheiro e poderia comprar coisas muito necessárias para sua família, inclusive, o primeiro bolo de aniversário para sua avó que em três dias completaria setenta e dois anos.

Shaira, na verdade, já era uma estrela, uma flor e uma borboleta, pois irradiava luz, era profundamente sensível e também de uma grande sabedoria, a de amar e tanto querer ajudar o seu povo.

E lá do céu, a menina enxergava o pequenino universo onde morava. Estava cheia de planos. O avião aterrissou.

Os olhos verdes da menina se encontraram com sua família e seu povo. As estrelas do céu brilhavam forte depois de um dia de sol.

(Cínthia Cortegoso)

Sob a luz do céu segue o caminho da vida

pexels-photo-94685

cinthiacortegoso@gmail.com

De Londrina-PR

Quando criança, Cecília era uma menina radiante, espuletinha, dificilmente chorava, só mesmo quando alguma coisa a machucava como o dia em que tentou pular a cerca de madeira entre uma casa e outra e acabou cortando a perna, o que resultou em alguns pontos. Ou ainda, quando sua melhor amiga mudou-se para outra cidade e, por isso, como Cecília chorou.

Ela não tinha irmãos e seus pais eram bem mais velhos do que os pais dos seus amigos e colegas de escola. Mas a menina ‒ que hoje já era jovenzinha ‒ amava seus pais do jeito que eram. E amava ouvir as histórias de antigamente que eles contavam.

Numa noite clara de primavera, cujo céu parecia um jardim de estrelas, os pais e a filha estavam na varanda, sentados, apreciando o belo céu no ritmo das histórias de antigamente. Numa dessas, o nome Lucila fora mencionado e os pais, nesta hora, olharam-se surpresos. Tentaram continuar, mas Cecília percebeu a surpresa e lhes perguntou:

‒ Quem é Lucila?

Os dois, de surpresos, passaram a assustados. Não deram resposta.

‒ Quem é Lucila? ‒ a filha insistiu.

‒ Meu bem… ‒ a mãe tentou começar uma explicação. ‒ Lucila era uma jovem que morava perto de onde morávamos na cidade do interior.

O pai não falou nada.

‒ E o que aconteceu com ela? ‒ a filha perguntou.

‒ Ah, naquela época só me lembro de que ela era uma adolescente e sua família passava muita necessidade.

Algo parecia faltar para a explicação. Então, o pai começou a contar outra história que recordara, algum acontecimento engraçado da época em que era menino. Mesmo assim, uma tensão pairou sobre a varanda. Cecília ficou mais um pouco e foi para seu quarto, adorava ler à noite.

Os pais se entreolharam com sentimento de preocupação. Ficaram os dois mais um pouco olhando o céu, mas com o pensamento perdido no tempo. Com passos calmos, Cecília voltou à varanda e sentou-se onde antes estava. Os dois a observaram e lhe sorriram com os olhos ansiosos.

‒ Oi, filha ‒ a mãe falou querendo uma resposta.

‒ Oi, mãe ‒ queria saber alguma coisa.

O pai observou o andamento sem falar nada. Algo incomodava os três; a filha interessou-se pelo nome.

A luz da lua parecia clarear ainda mais os olhos daquela família. Cecília aguardava mais algum comentário sobre Lucila. Os pais vasculhavam com rapidez a mente para logo iniciarem outro assunto, mas outros assuntos não eram interessantes o suficiente para aquele momento.

‒ Quem era a mãe de Lucila? ‒ a filha perguntou.

Os pais tentaram ganhar tempo para uma resposta.

‒ A mãe… de Lucila era a dona Anna.

O homem se surpreendeu com a resposta que não deixou de ser verdadeira.

‒ Anna? E o pai?

‒ O pai? ‒ a mãe ficou surpresa.

‒ Sim.

‒ O pai… se não me engano, era Constantine.

‒ Constantine e Anna ‒ Cecília repetiu.

E em meio às surpresas da noite, as horas passaram rápido, quase meia-noite.

‒ Preciso dormir ‒ o pai falou olhando o relógio de bolso.

Ele se levantou e foi para dentro.

Apenas as duas ficaram.

Cecília olhou para a mãe e sorriu. A mãe foi recíproca.

‒ Mãe, amo você.

A filha aproximou a cadeira e esticou o braço para pegar a mão já enrugada da mãe. As duas ficaram de mãos enlaçadas olhando a lua.

Cecília acariciou a mão materna. E as duas continuaram olhando para a imensidão do céu.

‒ Um dia posso conhecer quem me gerou e amá-la também, mas meus grandes amores hoje são você e papai.

As mãos ficaram enlaçadas e os olhos, marejados olhando o horizonte, brilhavam com a luz da lua e o brilho das estrelas.

(Cínthia Cortegoso)

A chuva cai para alimentar a terra

Petaled Flowers With Dew Drops on Close Up Photography

cinthiacortegoso@gmail.com

De Londrina-PR

Enquanto observava da janela da sala os últimos pingos após a tempestade, também buscava inspiração para alguma prosa ou poesia, desejava escrever. Mas inspiração não é coisa que se determina, ela vem quando quer, ou melhor, quando encontra terra arada. E do telhado parou de pingar. E a ponta de minha caneta estava parada sobre uma das páginas de um caderno ‒ prefiro ainda escrever à mão ‒ aguardando um começo, uma palavra que viesse para uma composição.

Bem mais seco estava o telhado. E a tarde continuou com a cor cinza, cor que acinzenta as cores primárias. A caneta escapou e fez um risco no papel. Assustei, pois não estava tão distraída assim. Mesmo em momentos de falta de inspiração, a disciplina cria condição, porém, nesta hora, nenhuma condição fora criada para minhas palavras. No entanto, outras palavras começaram a ser escritas. Períodos, parágrafos eram escritos. Virei a página e continuava. Sabia que não era minha literatura; eu estava presente, mas com certa ausência.

Foram vinte e duas páginas escritas. As palavras eram inclinadas para a direita. Quando escrevo, minha letra mantém posição vertical, portanto, não era minha composição. De quem poderia ser? Busquei o início do texto. Apareceu o vocativo, “Irmãos em Cristo”. Minha emoção transbordou em forma de forte arrepio com o sentimento que mais o Mestre nos ensina: o amor.

E a sequência da leitura foi em tom fraterno, amparador, de profunda instrução, a qual todos, pelo menos superficialmente, conhecemos o conteúdo, mas muito infelizmente relutamos em praticá-lo.

As palavras eram arranjadas com perfeição, sem excesso, nem limitação. Estou com as folhas em minhas mãos, no entanto, não consigo lê-las por inteiro, em voz alta, ainda não me recompus. Porém, posso relatar um pouco do muito que está escrito.

O início foi a abençoada saudação. E o conteúdo, tão completo, traz-nos o que já sabemos, não há vida se a vida não for cultivada, pois viver é muito além de dormir, alimentar-se, trabalhar mecanicamente e aguardar o pôr do sol e o amanhecer. Que o amor não será sentido se antes ele não brotar no próprio coração; assim, também, não haverá o respeito, a paciência, a tolerância, o perdão, a caridade se esses valores não forem sentidos antes pela própria criatura. Como somos centelhas eternas, necessitamos alimentar com o apropriado alimento o espírito a caminho da eternidade; materialidade pertence ao plano físico. Tudo o que é utilizado de forma equilibrada também será valioso, logo se aproveitará a sua essência. E uma citação primorosa: Somos centelhas criadas por Deus e Ele nos habita. E não há luz nem vida quando o pai está adormecido em nós.

Ainda nestas vinte e duas páginas, a prece foi nominada como a bonança para o nosso interior, quanto mais nos conectarmos com o Criador, mais sentiremos Sua onipotência e onipresença.

O céu foi clareando.

Guardarei com gratidão o abençoado presente; primeiro, toda a lembrança do aprendizado e segundo, as páginas em tinta que sempre me recordarão da certeza de que sou filha de Deus, como você, e somos irmãos de Jesus.

Algumas vezes não acontecerá o que desejamos, porém, o que devemos aprender e viver. Graças a Deus que o Pai não faz a vontade do filho, mas, sim, o que sempre será melhor para seu pequenino.

E antes de anoitecer, o sol deixou alguns raios singelos no céu. E o telhado já estava bem limpo para refletir o brilho das estrelas.

(Cínthia Cortegoso)

Reminiscência

Violin

cinthiacortegoso@gmail.com

De Londrina-PR

‒ O senhor pode me ensinar a construir violinos? ‒ o menino Antoine perguntou ao antigo vizinho de bem antes de ele nascer.

Após a escola e o almoço, o menino se aproximava da oficina onde o senhor Marion construía muitas peças lindas em madeira. A casa mais antiga era a de Marion e a menos um pouco, ao lado, a de Antoine que nascera ali, herança de seus avós maternos. Por volta normalmente das catorze horas, o menino já estava sentado num banquinho construído pelo senhor e observando a arte que Marion dava a qualquer pedaço de madeira. Era antes um grande carpinteiro que se tornara um artista sensível, no entanto, sem alarde, apenas manteve-se com sua simplicidade.

O senhor construíra desde pequenos brinquedos a grandes móveis que enfeitavam as nobres casas francesas daquela região. E há alguns anos, ganhara muitas madeiras de boa qualidade e algumas delas apropriadas para o feitio de violinos ‒ madeiras que eram ideais para a acústica ‒, no entanto, nunca havia construído nenhum instrumento sequer. Mas, como ele sempre dizia, “tudo se pode aprender”, então, Marion foi em busca de projetos para a construção de violino. A mesma pessoa que o presenteara com as madeiras também havia encomendado o primeiro instrumento ao carpinteiro.

“Todo objetivo precisa de empenho”, uma das falas de Marion. E com este não fora diferente, pois não era tão comum encontrar um projeto ideal para um bom violino; porém, quem deseja sinceramente alcança o objetivo e, assim, Marion conheceu um senhor inglês radicado numa cidade bem próxima de onde morava que construía instrumentos de madeira com cordas. Além do objetivo, também angariou uma preciosa amizade de já alguns anos que dura até os dias presentes.

Marion tomou um grande gosto pela feitura de violinos que passou a ser o seu trabalho, vez ou outra construía outros objetos ou brinquedos. Ele se tornou um reconhecido luthier, não só da região como do país e referência no exterior. E Antoine nascera ali do lado e era natural ver um senhor construindo violinos.

No entanto, Antoine sabia que não eram violinos tão comuns, mas construídos com muito cuidado e requinte. O menino observava atenciosamente cada gesto e forma utilizados em cada parte da construção do instrumento. Sabia quais ferramentas seriam usadas, qual a sequência para a feitura, a medida das partes. Ele sabia que cada violino construído ali era “incomparável, único, por isso tão especial”, pois era assim que o senhor Marion falava em voz alta.

E naquele dia, sem responder ainda à pergunta, o luthier pediu ajuda ao menino, que segurasse o pedaço de madeira para o senhor terminar o acabamento; era uma encomenda feita por um dos mais renomados violinistas da Suíça. O projeto fora desenhado pelo próprio instrumentista, um design inovador e perfeito, pareceria inteiramente com vida o reverberar das notas no instrumento, seria pura emoção.

O pequeno Antoine segurou com precisão a madeira, uma das partes do violino. Com respeito pelo trabalho, com carinho pelo instrumento, com a certeza do magnífico som que sairia, foi assim que o menino ajudou o luthier.

Quando o sol já ameaçava esconder-se é que o senhor e o menino terminaram a parte do violino para aquele dia. O senhor Marion deu um sorriso de canto de boca, entretanto, seus olhos estavam radiantes.

E o senhor já havia percebido que Antoine amava violinos. Naquele fim de tarde, Marion ofereceu um violino da oficina com o arco para o menino vê-los de mais perto e senti-los. Agora, os olhos de Antoine é que estavam radiantes.

Ele observou cada partinha do instrumento, enquanto isso, o senhor organizava a oficina. E quando o último raio de sol se escondeu para iniciar o turno das estrelas, foi ouvido o som imensamente sensível vindo do instrumento das mãos de Antoine.

O senhor parou imediatamente o que fazia e muito devagar se virou para o menino.

‒ Sim, posso ensiná-lo a construir violinos já que é seu instrumento tão particular de há muito tempo… certamente de muitas existências ‒ falou em tom baixo ouvindo a melodia.

(Cínthia Cortegoso)

A arte da existência

Red Flower Near White Flower during Daytime

cinthiacortegoso@gmail.com

De Londrina-PR

Se após a noite escura, o sol nasce com brilho; se após a chuva, as flores tornam-se mais vivas e coloridas; se após a dor, o bálsamo da paz visita o coração como se parecesse tão distante a turbulência que ocasionou o sofrimento; se após a grande lição, pernas mais fortes seguem o caminho rumo ao objetivo; se após a perda de um alguém dos nossos dias, o sonho, na noite, apresenta-nos a verdadeira vida… a eternidade; se após todo desalento há o seu reconforto, basta somente mais fé para senti-lo.

Nunca estamos sós e nunca estamos apenas à mercê de dias infelizes, a não ser que seja o desejo de um triste coração; porém, mesmo assim, a bondade divina é maior do que qualquer outro sentimento. Deus é tudo, é a vida, é a supremacia, é a luz eterna, é a alegria e a força, é a paz e o amor, é a proteção e o amparo, é o perdão e a bondade.

Se Deus, incomparável, criou-nos como Seus filhos, o que temeremos? Devemos aprender bem mais a viver esta tão abençoada oportunidade e compreender que esta é uma de tantas vividas e uma das inúmeras futuras reencarnações adiante. E se há sucessivas oportunidades, cada vez mais desenvolvermos a fé, que é a crença em algo que não se pode tocar, mas que totalmente se pode atestar e sentir, é imprescindível.

Desde o início, o amparo é companheiro e a luz não se apaga; às vezes, ela não é vista pelo motivo de os olhos estarem fora do ângulo do caminho reto, no entanto, a luz é eterna e sempre brilhará onde a bondade e o amor forem moradores e onde o esforço por melhoria for verificado.

O sorriso no rosto refletirá a esperança e o agradecimento e como é maravilhoso receber a alegria de olhos que simplesmente sorriem. Por recebermos a vida, já é a grande causa para sentirmo-nos fortes e felizes para a jornada dos infindos dias.

Tudo será valioso quando o amor for o regente da sinfonia e quando este amor for sentido pelo próprio coração, então, as dificuldades passarão e as dores se suavizarão, pois nenhuma ocorrência perdurará por tempos incalculáveis e o bem será valorizado e a turbulência sempre cessará. O pensamento, energia absoluta, precisa de direção e cultivo para sua melhor essência, já que se cria um universo pela forma de pensar.

E avante… este é o melhor imperativo sempre, pois nada para a não ser que se force a sua parada por um instante e desperdice o precioso tempo. Mas a vida é abençoada demais e precisa ser explorada com todo agradecimento. Menos medo, menos apego; as coisas boas se vão para que melhores ainda possam apresentar-se. E a mais notável companhia continua ao nosso lado… eternamente.

Nunca estaremos abandonados, portanto, nunca desistamos de nós mesmos. Somos o nosso tudo até agora e tudo o que mais podemos conquistar. À vida, a ausência de querer viver ‒ se isso vier um dia a acontecer ‒ lhe deixará um enorme vazio porque somos vida e na vida devemos estar, a nossa apatia deixará os seus doces olhos marejados de tristeza pela falta de fé.

E teremos todo amparo necessário e a renovação de forças para a continuidade e a cada passo alcançado nos aproximaremos mais da alegria. E o sentido do caminho será pleno quando o nosso coração reconhecê-lo como fundamental e não quando alheios corações quiserem impor-lhe um sentido equivocado.

Cada trilha é extremamente valiosa. Teremos companheiros sempre, mas a jornada será individual, e Deus continuará cuidando de cada um de nós.

(Cínthia Cortegoso)

Os moinhos de Anemoon

Resultado de imagem para desenho de moinhos de vento e um menino

cinthiacortegoso@gmail.com

De Londrina-PR

Quanto mais vento, mais as hélices dos moinhos se movimentavam, elas se impulsionavam querendo alcançar o horizonte assim como Anemoon queria partir para os lugares criados por sua imaginação.

Ele era um menino habitante de uma pequena e calma cidade da Holanda, morava com seus avós; seus pais, por algum motivo, foram para outro país a fim de encontrarem uma vida mais tranquila e próspera, mas nunca voltaram para a pequena cidade, nem para visitar o filho que há pouco completara doze anos. E Anemoon sentia a falta dos pais, no entanto, não compartilhava essa dor com os avós que ele tanto amava e os avós o amavam mais e mais, costumavam dizer que os amavam até o infinito do vento dos moinhos. Anemoon sorria.

O avô tinha um pedaço de terra, equivalente a uma chácara simples, onde plantava, em pouca quantidade, muitos alimentos para a família de três pessoas consumir. A avó, ótima cozinheira, fazia comidas muito saborosas. Não eram comidas sofisticadas, mas muito nutritivas e deliciosas; Anemoon sempre elogiava sua avó-cozinheira predileta. Ainda havia um gato branco de nome Zank, já era da família, pois presenciara boa parte da história dessas pessoas. Ele era muito observador e parecia compreender o que ocorria naquele lar. Era já um velho gato.

Anemoon perdia a hora de tanto contemplar os moinhos próximos de sua casa. Eram moinhos antigos e estavam lá só como preciosidades, pois outras máquinas mais modernas já os haviam substituído para a captação de energia. Entretanto, existiam, estavam conservados; suas hélices giravam e, para o menino, eles eram importantes demais: davam realidade à sua imaginação.

E numa tarde de céu azul anil claro, o menino estava sentado num banquinho sob a sombra de uma árvore de pequeno tamanho olhando para seus inspiradores moinhos, quando algumas pessoas com roupas diferentes começaram a sair de dentro deles e a caminhar para perto do menino que não acreditava no que via, coçou os olhos para tentar melhorar a visão, mas era uma imagem verdadeira e as pessoas mais se aproximavam dele.

Os moinhos passaram a rodar mais rápido, pois o vento também estava mais forte. Anemoon não piscava e seus olhos diziam não acreditar. E quando se deu conta, as pessoas estavam bem à sua frente. Sorriram para ele com ternura. O pequeno não teve condições para fugir, pois suas pernas estavam trêmulas e não poderiam sustentar o corpo de menino. E eles abaixaram e sorriram para Anemoon. Havia homens e mulheres; todos estavam vestidos com roupas muito diferentes das que ele conhecia.

Os olhinhos estavam prontos para piscar. “Quem sabe com algumas piscadas, a mágica pudesse se desfazer e tudo voltaria ao normal”, o menino pensou. Mas ele piscou muitas vezes e coçou forte os olhos, mas aquelas pessoas com aparência de bondade continuavam ali e após o pensamento do menino, eles sorriram mais e Anemoon percebeu. Na verdade, sorriram porque…

‒ Vocês sabem o meu pensamento? ‒ Anemoon perguntou espantado.

‒ Sim, podemos saber o seu pensamento – um dos homens respondeu.

‒ E agora? Vocês saberão tudo o que penso! ‒ o menino concluiu insatisfeito. ‒ O pensamento é de cada um! ‒ falou um pouquinho bravo.

‒ Calma, Anemoon! ‒ uma das mulheres pediu com muita ternura. ‒ Você já sabe o meu nome? ‒ tornou a perguntar.

‒ Sim… e também sabemos muito sobre você, menino dos moinhos – a mulher completou.

Decididamente, Anemoon não falou mais nenhuma palavra… para quê? Eles podiam ler o pensamento do menino.

Entre homens e mulheres, contavam cinco: três delas e dois deles. “Eram muito diferentes, mas de um jeito bonito e não assustador”, pensou o menino. Suas roupas eram de um cinza bem clarinho e cobriam quase todo o corpo deixando apenas as mãos, o pescoço e a cabeça à mostra. “E seus rostos eram tão bondosos!”, mais uma vez, ele pensou.

“Mas como eles saíram dos moinhos?”

‒ Se você quiser podemos conversar de forma comum com perguntas e respostas em voz alta – o homem, que já havia falado antes, sugeriu.

Anemoon olhou para o homem e concordou com a cabeça.

‒ Então, precisamos nos apresentar. Sou Trada – o homem se apresentou.

‒ Trada? Que nome esquisito!

‒ Sou Dren ‒ o outro homem se apresentou.

Anemoon estava muito surpreso.

‒ Sou Medra – a mulher que já havia conversado antes falou.

‒ Sou Cetra – também a outra.

‒ E sou Hadre – a terceira mulher falou.

O menino preferiu não fazer nenhuma observação, simplesmente falou:

‒ Prazer em conhecê-los.

‒ A alegria é muito grande em estarmos aqui com você – Trada falou.

Anemoon estava surpreso, curioso e ao mesmo tempo feliz.

Os cinco também estavam felizes.

‒ E os moinhos… Como vocês saíram de lá? ‒ o menino perguntou.

‒ Anemoon, precisávamos chegar a você e como é encantado pelos moinhos, nada melhor do que ter toda sua atenção por meio de algo de que tanto gosta – o homem começou a explicação.

Trada era o mais falante e, sem nenhuma vaidade, parecia ser o líder pelas explicações dadas.

‒ E por que eu? ‒ o menino quis saber.

Os dois homens e as três mulheres olhavam para ele com imensa bondade. E em banquinhos como o de Anemoon, eles se sentaram.

‒ Porque você, meu querido, sempre tem bons pensamentos e tanto deseja um mundo mais feliz – Medra falou. ‒ Observamos você todos os dias quando está aqui admirando seus moinhos. Pois bem, e o movimento que as hélices fazem cria energia e por meio do seu olhar se transforma em bondade em seu coração que é lançada para muitas direções… para muitas pessoas. E mesmo com a dor da ausência de seus pais, você ama e tanto amor há em seu coração.

E Anemoon observava com seus olhinhos tão brilhantes e surpresos, pois esse sentimento ele nunca compartilhara, estava em seu interior… pensava que estivesse só em seu coração e o pequenino não imaginava que seu pensamento e sentimento pudessem ser desvendados assim, tão perfeitamente. E seus olhinhos permaneciam brilhantes.

‒ Mas… quem são vocês? ‒ ele insistiu. ‒ Não apenas os nomes… de onde vieram e o que fazem? ‒ o menino insistiu.

‒ Anemoon, somos cinco habitantes de um lugar onde a bondade é o maior sentimento, onde o bem é vivenciado. E continuamente observamos os diversificados lugares e conhecemos quem são as pessoas que criam essas luzes cintilantes, pois a bondade possui uma luz muito radiante, é o oposto de sentimentos não muito bons que emitem uma nuvem triste e acinzentada. Em muitos casos, as pessoas desconhecem que pensamento e sentimento emitem formas e cores ‒ Trada fez uma observação.

‒ Mas sou apenas um menino – ele tentou explicar.

‒ Mas seus sentimentos são inteiramente brilhantes e bons – Trada falou.

‒ E o que querem de mim? ‒ o menino perguntou.

‒ Quisemos conhecê-lo porque é muito jovem e amoroso e isso nos sensibilizou. Também viemos para fortalecê-lo a continuar nesta caminhada de bondade que você já trilha para ajudar ainda inúmeras pessoas, animais e flores…

O menino suspirou e soltou um leve sorriso.

‒ Sim, penso muito em ajudar as pessoas e penso em como posso fazer. Meu avô me falou que não sou como os outros meninos… que pareço de outro mundo, mas ele não me falou de qual mundo – sorriu.

Os dois homens e as três mulheres também sorriram, eles sabiam que Anemoon, como os moinhos de vento, levaria adiante o sopro da bondade e do amor. Talvez Anemoon também fosse do mesmo mundo que eles.

E os cinco voltaram por onde vieram e os moinhos de vento levaram todos ao seu destino.

O menino acordou de seu hipnotizante cochilo. Esfregou os olhos. Olhou para os moinhos que giravam com o vento. Lembrou-se de alguma coisa, mas não dos detalhes. Sorriu… sorriu feliz, mas não por se lembrar, sorriu por olhar os moinhos e por algum motivo sentir-se com mais vontade ainda de querer ajudar o mundo, na verdade, de realizar o compromisso assumido antes de vir para o plano destes moinhos terrenos de vento.

(Cínthia Cortegoso)

Existem as mães e existem os filhos

child, mom, mother

cinthiacortegoso@gmail.com

De Londrina-PR

Conhece-se muito bem o valioso papel de uma mãe. No entanto, nem sempre esta figura recebe o tratamento condizente com sua importância. Observa-se que mãe é o esteio de uma família, é brandura, apaziguamento, amor, é a segurança de um filho pequenino e, tantas outras vezes, de filhos adultos. Mãe é uma estrelinha que deixou um pouco o azul forte do céu para atender a uma pequenina criatura… seu bebê, filho, filhote, seu tesouro.

Pois bem, como se já conhece superficial ou mais profundamente o valor de uma mãe, segue uma considerável característica que os filhos deveriam desenvolver para que olhos e coração maternos pudessem sorrir mais. Como nada é por acaso, todo filho recebe a mãe necessária e esta, os filhos adequados ao desenvolvimento na evolução.

Um filho, para início de tudo, deveria respeitar sua mãe, pois, independente de seu progresso, ela quererá o bem sempre a um filho. E o respeito por qualquer criatura é imprescindível para que notáveis atos sejam criados. E ouvir com carinho ‒ já que mães adoram falar ‒ o momento em que o ser materno está compartilhando algo ou corrigindo alguma atitude não tão exemplar do filho é um pequenino passo ao encontro do respeito. Mãe é, sobretudo, mais emoção que razão.

E se o respeito abraça tantos outros primorosos atributos, que o filho ampare sua mãe quando a necessidade ocorrer principalmente, mas sabendo que deveria auxiliá-la em todos os dias da vida. O tempo de uma mãe é muito diferente do tempo em que o filho vive, ainda mais hoje. De repente, passam-se dias, semanas e os olhos maternos mais cansados e, às vezes, mais tristes não puderam ver os olhos do filho residentes na mesma cidade. Como este filho, muitos outros também podem pensar: tempo é dinheiro. No entanto, dinheiro que se compra o materialismo, importante para a nossa encarnação, sem dúvida, mas que em nenhum tempo comprará o nobre sentimento que fortalece e alegra o coração.

O olhar materno continua aguardando a imagem do filho, porém, este com menos tempo e amor para o ser que concordou em doar-se para mais uma oportunidade de ele crescer. E a mãe vai passando a ser mais filha com os anos vencidos, a precisar mais dos espíritos caminhantes, ora gerados por seu ventre, ora lindos presentes da vida, pois filhos serão sempre filhos e mães assim também deveriam ser.

Pelo grau de valor que uma mãe possui, o filho deve considerar inúmeros compromissos com este ser. E o maior deles é o respeito já que tantos outros abençoados são de sua própria ramificação. A vida terrena é uma chispa, mas é por meio das encarnações que angariamos bons recursos para a verdadeira vida que é após a desencarnação. Tão possível o filho ter o comportamento como, de fato, deve ser, principalmente, quando ele e sua mãe ainda estiverem caminhando entre os jardins e pomares da Terra. E quando esses dois seres forem mais respeito um com o outro, frutas doces e belas flores preencherão também os campos terrenos.

Filho, respeite sua mãe.

Mãe, respeite seu filho. Embora seja filho agora, ele é um espírito que provavelmente já tenha sido mãe e, certamente, em algum momento futuro o será. O seu exemplo materno poderá ser o grande professor para o filho experienciar.

Mães e filhos, sejam sempre mais amigos e companheiros e todas as manhãs serão mais ternas e os entardeceres, mais felizes.

E a doçura da mãe Maria de Nazaré verificou-se no céu calmo de muitas estrelas.

E a graça do filho Jesus Cristo verificou-se nos prados e campinas verdejantes que pássaros brancos amam pousar.

(Cínthia Cortegoso)